enricaus.

poesia absurda.

rapsódicas boemias nos caules da minha pele tentam escapar pelos esporos dos meus amores incompletos.

romeu e don juan no meu peito se conectam. amantes desconexos, incomunicações sentimentais.

duas partes se unem e a vida assim surge. o tempo e as circunstâncias dilaceram.

o que há para se ver nas terras dos mal-aventurados? intercursos sexuais, anonimatos emocionais?

episódicos atritos entre a minha sede de ser ar e minha falta de ser mar.

você já caminhou pelas costas do profano para então chegar ao precipício de onde é possível contemplar o que existe após os limites da moralidade?

a esperança é uma arma de dominação. aqueles por onde nas veias vive a esperança são incapazes de criar o mundo pelo medo de perdê-la. quando não se tem esperança, não se tem nada a perder. o que resta aos desesperançados é transformar.

percamos todas as esperanças, pois são também elas males nas nossas caixas de pandora.

pelo meu corpo de ar transpassam as pessoas da rua. organismos que, ao ocuparem o mesmo espaço visível, tornam-se ambos invisíveis um ao outro.

o benefício de se camuflar diante de qualquer paisagem é a capacidade de vislumbrar os observadores. é necessário ser esquecido para lembrar do abismo que existe entre as nossas consciências.

solidão não é apenas indiferença. solidão é a ausença de quaisquer diferenças entre eu e você. [o salto mortal de um ser universal acontece pela sua necessidade de experienciar a multiplicidade]

unidade é solidão.

muito tempo na minha masmorra de concreto, pouco tempo na superfície da realidade. só nos tornamos completamente sozinhos quando as estrelas se tornam tão próximas.

solidão é a completa ausência de atenção.

-eu te vejo.

ser amado é ser percebido.

em todas as coisas do mundo, devaneio. em todos os cantos do meu habitat, precipícios e mofo. em todas as canções do mundo, nenhuma memória particular. viver e não viver parecem muito semelhantes pra mim.

eu tenho privilégios demais.

aquecido pelo calor de um abraço virtual, me desconecto da minha humanidade anterior. não me encanta o brilho da sua alma, por mais orvalhar que ela neve do céu. você me entende?

dentro de mim saturno gira seu anéis e ultrapasso, na velocidade do tempo, a luz.

estou para além do espaço das coisas visíveis, dos nossos corpos de faíscas estelares e sinapses de sofrimento contínuo. eu antes era, e ainda agora não sou aquilo que algum dia sonhei em não ser, porque continuo sendo. a gravidade me enraíza nessa realidade pálida e, apático, respiro esse ar de nenhuma ressurreição.

pedir a minha paciência é implorar pela minha redenção.

pássaro negro, se entorpece do ar da atmosfera e explode em supernova. vou destruir seu mundo de ideias e depois me apossar do seu manto de maia. do meu manto de maia. do nosso manto de maia.

fogos de artifício, um artifício da natureza em uma pintura de natureza-morta.

eu não sou mais todos os sonhos do mundo, e nenhuma ambição permanecerá. apenas uma muito rígida disciplina em descumprir todos meus compromissos.

eu ainda sou e, portanto, não existo. eu existo e, portanto, ainda posso um dia não ser. aos que entrarem por aqui, percam todas as esperanças.

a liberdade vive naqueles que caem.

mil formas existem de se apaixonar por alguém. mil outras formas existem de se despedaçar por alguém. quantas vezes poderei sentir você amanhecer no meu peito?

eu não tenho escrito muito sobre amor. acho que é necessário sentir pra expressar. existe outra forma mais autêntica que um copo explodindo no chão? de raiva, corto minhas mãos com os cacos, e chamo isso de romance.

romances de vidro. se não quebram, derretem.

ailurus, acho que não tenho meditado tanto por você. me ajuda a encontrar uma desculpa que te satisfaça? eu tô sem tempo? mas tempo é tão maleável, você bem sabe disso. eu tô viciado em mentir? mas eu prometo que tenho tentado ser sincero. eu tô sempre bêbado? mas eu só bebo o que escrevo. eu tô perdido, e tentar se encontrar no meio de tanto desencontro é tão impossível. impossível?

nessa cidade, existe uma rosa de pálida agonia a me esperar. vou roubar seus versos e dizer que são meus. afinal, o que sou senão no espelho o seu reflexo?

despersonalização. portas da percepção. dois caminhos existem para se aniquilar, e eu sempre escolho à esquerda. é o lado da revolta, e o que eu sou senão inteiro raiva e ira?

mesmo calado, eu ainda existo. e existir é um puta ato político.

eu desejo que seu coração um dia se incendeie por alguém, como o meu que transborda por você. mesmo que suas luzes não me iluminem, e seu fogo queime outras paixões.

eu continuarei fascinado por esse seu sorriso tão doce, mesmo que um dia eu não tenha mais o privilégio de vê-lo. eu continuarei apaixonado por cada detalhe do seu rosto, mesmo que um dia eu não possa mais tocá-lo.

eu te olho com sentimentos, e minha maldição é sentir demais. seu beijo é presente, seu coração é futuro. nunca amei tanto o presente e nunca quis tanto ler o futuro.

céu de estrelas, sua pele é feita de lua. seu cabelo noturno tem cheiro de mirtilo e frutas vermelhas.

eu daria tudo pra mergulhar no seu corpo. você poderia me ter inteiro, mas eu entendo não querer. alguns romances se perdem no caminho e tá tudo bem.

rios correm pelo seus pulsos, e eu queria poder me inundar da vida que existe em você. mas como não sei nadar, me afogo na ressaca dos seus olhos.

e os meus olhos brilham por você, como vagalumes de noites azuis.

nenhuma madrugada em claro tem o poder de me deixar tão paralisado e aterrorizado quanto você tem em mim.

você não é a parte que falta pra minha felicidade. você não é destinada a mim, eu não sou destinado a você.

você é como o que eu acabei me esquecendo de ser, sonhar, vestir, me tornar.

risos ecoam das minhas falhas tentativas de te decifrar. seus detalhes são tantos que não dá pra sentir quem você é arranhando sua pele quando ninguém tá por perto.

qualquer passo errado que você der poderia facilmente me esmagar. então, por favor, olha pra frente sempre.

esse poema não é um pedaço de um romance ainda não escrito, com esses olhares errantes cortando as páginas e um amor moderno escorrendo pelo papel. muito menos uma declaração, uma homenagem ou uma carta romântica marcada em vermelho.

esse poema é pra dizer que eu tenho medo de você. esse poema é frio, cru, escasso e controverso.

esse poema é pra dizer que você me deixa confuso, me mantendo enfeitiçado pela liberdade da sua alma.

esse poema é sobre ansiedade e tremer o corpo inteiro pra tentar te beijar, sem saber por que caralhos tremo tanto.

esse poema é sobre beijos e como eles me deixam totalmente ridículo. é sobre estar perto e mesmo assim me sentir longe.

eu não te alcanço quando você corre. isso nunca foi exaustão ou cansaço. eu quero te ver por completo.

te ver por completo não chega nem perto de te ver.

esse poema é sobre fugir de você e correr até não conseguir mais. é sobre cantar em silêncio sem querer ser ouvido, e ao mesmo tempo querer.

é sobre tentar escrever e acabar não escrevendo nada.

esse poema é pra te dizer que eu não quero nem fudendo me apaixonar por você. mas também dizer que se fosse esse o caso, eu beijaria o tempo.

esse poema não é sobre amor à primeira vista, mas eu espero muito que você deslize de novo pelos meus olhos.

entre a ordem representativa das coisas e a expressão do que sinto pelos sentidos, existe uma ponte prestes a desabar.

é sobre pontes que eu tenho pensado esses dias.

o que é mais real que a matéria? o que é mais irreal que a matéria?

um leãozinho aprende a caçar. ansioso por liberdade, devora o ar da savana. crescer é entrar em guerra consigo mesmo, ou o que um pessimista pronunciaria como guerra contra o significado da existência e sua existência como significado.

o mundo como vontade e representação. a fatalidade da vida está em viver.

objetos flutuantes na vida de outras pessoas. criação é só um sinônimo pra transvaloração.

mas pelo menos, enquanto o sol nascer, estaremos vivos. porque importância não tem nada a ver com grandeza.

existe força nas coisas pequenas.

às vezes são minhas péssimas decisões ou os nossos olhares de brasa. às vezes é minha gatinha amassando pãozinho, uma plantinha gordinha ou o seu sorriso de mar. às vezes são as palavras, os desejos, a perda do meu controle ou a minha incapacidade de sentir as coisas com calma.

às vezes é saudade e às vezes é o calor dos seus olhos. às vezes são as marés e as ondas e às vezes é o céu.

dança de galáxias. da ponta dos meus dedos eu sinto sua pele respirar.

às vezes é descobrir o sofrimento e depois a cura para o sofrimento.

me ensina a ser mais forte, me ensina a ser mais de mim mesmo.

que eu adormeça em um nirvana mundano e impuro e tão lindo justamente por ser tão impuro.

sou grato por você ser quem você é, se fazendo existir nessa existência tão doce e com sabor de abraço.

às vezes é acordar e logo depois dormir. às vezes são os almoços e os vinhos baratos das nossas noites perdidas.

meu olhar atravessa as paredes do meu quarto, mas nos seus olhos ele se demora. eu às vezes escolho ficar.

olhos castanhos. ressaca do mar.

às vezes é a lua, como qualquer outra pessoa no mundo que ama a lua. você é um lunático. o seu hospício às vezes habita os meus sonhos.

silêncio, os adultos estão conversando. schiiii.

sempre queremos o eterno e esperando pelo eterno nós morreremos. porque eternidade não é tempo, eternidade é presença.

eu decorei seu cheiro.

que dionísio fuja de seu mundo inteligível de ternura e se deite no colo de goethe. que eles se amem e que desse amor nasça o selvagem.

os amores que colecionamos um dia vão se tornar dentes de leão e voar pelo vento e pelo acaso.

eu te amo porque você é um estrangeiro nas minhas terras inférteis. você há de passar e eu hei de te ver partir.

me diz depois se o café da manhã foi bom.

política e o controle das massas. massas e a morte das identidades. exercer a sagrada arte de pensar enquanto suas colônias na África morrem do trabalho escravo.

propriedade e o roubo da terra. antropocentrismo e a morte da vida animal. a revolução é uma luta dos mundos sensíveis.

moralismo e o fim da moralidade. igreja e o roubo das consciências. o estado é poder, o poder em imagem e semelhança de um homem. que o homem seja abolido com o gênero.

a castidade corrompe nossa energia, e nossa energia vem do sexo. primeiro, vocês nos tomam nossas vidas, depois roubam nosso prazer. seja a guerra dos mundos guerra pelo direito à felicidade.

não há liberdade sem igualdade. não há igualdade sem liberdade. uma filosofia pra todos ou uma filosofia pra ninguém.

o trabalho nos faz humanos e através dele nós pensamos. mas nunca existiu trabalho no mundo. o que existe é o nono andar, e dele vocês os jogam.

o diabo é branco e exerce o mal enquanto indiferentemente pinta suas unhas.

meus privilégios e o roubo dos seus direitos. minha riqueza fruto da sua miséria. nossas carnes temperadas têm o sangue da inocência.

cristianismo e a morte de cristo. religião e a morte de deus. o ocidente sequestra o oriente e transforma o preto em branco. o branco é a rendição e a covardia.

nossa bandeira é negra.

desumanizaram nossos sentimentos e tornaram nossa dança um pecado. o que vocês chamam de perverso, eu chamo de amor.

amo tudo que é decadente, e zaratustra quer agora o seu ocaso.

a polícia é a morte dos pobres. a segurança da burguesia é a morte dos pobres. a moderação é a morte dos pobres. as penitenciárias são a morte dos pobres. carandiru é o lema da bandeira. revolução burguesa francesa é a hipocrisia da classe. a guerra contra as drogas é guerra contra os negros.

liberdade ou autoridade, quando autoridade é morte? e sempre é.

vocês destroem, humilham, lucram, criminalizam, corrompem e torturam. encarceram bodes expiatórios em nome da boa cidadania e dos bons costumes.

isso não é liberdade. isso é mercado. que deus salve a rainha da independência do povo.

liberdade só é liberdade quando compartilhada. liberdade só é liberdade se infinita. que sejamos livres.

livres e marginais.